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Tu viu? Tá caindo. Tu já tá olhando pra ele faz um tempo. Olha bem pra ele, presta atenção. Às vezes parece que tá parado, às vezes parece que tá ondulando lá em cima. Inclina pra direita, depois pra esquerda. Desce um pouco, depois sobe. Mas tá caindo. Tu já percebeu. Uma pipa, um papagaio, enorme, deve ser. Um azul escuro, de um quase roxo estranhamente translúcido, sob a forte luz do sol no meio da tarde de um domingo. De repente, ele começa a sair daquela posição. Parece que ora se afastando e, ao mesmo, descendo. É então que tu te dá conta, tá caindo. Tu fica ali, observando a trajetória da queda. Tu não sabe como, intui que ele devia estar sendo empinado de algum ponto não muito longe de ti, ali na Praça Olímpio Lima, onde tu corre e brinca com as crianças que, como tu, moram ao redor.
Talvez bem atrás de ti, na direção do bairro do Marapé, nas proximidades do Canal Um, ou, talvez, dos lados do Campo Grande, já perto do Canal Dois. E o papagaio vai sendo arrastado pelo vento, lá para o outro lado da Vila Belmiro. Aí tu te lembra daquela vez em que, empinando teu papagaio, numa distração o cordão te escapou por entre os dedos. Te lembra do teu desespero, correndo atrás do papagaio em queda. E do teu contentamento, felicidade mesmo, quando a linha tocou o chão, duas ou três quadras depois, e tu conseguiu retomar a pipa em pleno voo. Tu pensa, então, que, se o cordão desse papagaio imenso, de fio espesso, por certo, tivesse sido solto, ou rompido, perto do local em que estava sendo empinado, ele poderia vir tocando o chão por ali mesmo, pertinho de casa. Seguindo a intuição, tu vai andando em direção ao campo da Americana, que fica a uma quadra da tua casa. Já no meio do caminho, tu começa a avistar o fio, quase na altura dos telhados. Percebe que o fio deve atingir o chão lá dentro do campo da Americana. Tu pula o muro, depois a pequena cerca que circunda o campo, corre para o meio do gramado e consegue segurar o cordão. Fica segurando até sentir o tranco, quando a corda retesa. Tu é quase arrastado. Mas segura firme, com todo o empenho na façanha que acaba de realizar. O papagaio pára lá em cima, uma posição bem baixa, não muito distante, quase se escondendo por detrás dos telhados das casas. Tu começa a controlar a posição, empinando com cuidado, ele até se ergue ligeiramente. Tu fica assim durante alguns minutos, desfrutando do comando que acaba de conquistar.
De repente, algumas pessoas entram no campo, também pulando o muro, arfando, esbaforidas. É o pessoal que empinava e perdeu o papagaio. Perguntam como é que tu tinha feito aquilo. Tu conta a pequena aventura, e passa o cordão para eles, que vão puxando de volta o papagaio até pousá-lo ali no campo da Americana. É mesmo um papagaio imenso, ou, pelo menos, é a impressão que fica, para o teu tamanho de criança. Recolhem a pipa, agradecem e vão embora.
Tu fica ali parado ainda durante certo tempo, sozinho, no centro daquele imenso campo, vazio àquela hora da tarde de um domingo, um estádio de futebol amador, quase um futebol de várzea. Fica curtindo uma peculiar sensação de ter interferido no curso de um acontecimento, de ter introduzido uma nova direção na trajetória de queda, aparentemente inapelável, de um corpo no espaço.
Mais tarde, em casa, teu irmão, que tinha ido ao Estádio Urbano Caldeira, campo do Santos, para assistir o jogo do Santos com o São Paulo, time do qual ele era torcedor, conta que, no meio da partida, do nada, começa a aparecer no alto um papagaio imenso. Ele vai caindo, caindo em direção ao meio do gramado. A torcida praticamente pára, esperando ver o papagaio aterrissar no campo. A partida certamente teria que ser interrompida. No entanto, quando está bem perto, quase na altura das arquibancadas, paira lá em cima. Durante alguns minutos fica assim, estático, planando, depois sobe um pouco, e logo em seguida ganha de novo as alturas, e desaparece por detrás dos muros do estádio.
A tua sensação quase onipotente de ter desviado o curso da história daquele papagaio se amplia extraordinariamente. Agora tu havia puxado as cordas de um evento que deixara uma multidão na expectativa, suspensa por um fio. Havia brincado de títere com a imaginação das pessoas. Anonimamente, guardado pela distância como as sombras do palco que escondem o corpo dos que imprimem movimentos aos bonecos. Tu conta então que tinha impedido a queda do papagaio, mas parece que ninguém em casa acredita. Afinal, quem era o dono do papagaio? Ninguém te deu nem uns trocados, em agradecimento? E a tua incrível façanha morre por ali mesmo.
Alguns anos mais tarde, ao folhear casualmente uma revista sobre o Santos F. C., o registro de um jogo dominical entre o time santista e o São Paulo F.C., em 7 de junho de 1952, te parece ser o dia desse resgate. Então, por curiosidade, tu faz uma pesquisa nos arquivos do jornal da cidade, para ver se encontra alguma eventual referência nas notícias esportivas ou locais. Não consegue encontrar nada. Assumindo a possibilidade de ter sido outra data, tu percorre ainda, detidamente, exemplares das edições de anos próximos. Nem uma palavra. Cinquenta e poucos anos depois do ocorrido, tu pergunta a teu irmão se ele lembra do fato. Do papagaio quase caindo no campo do Santos, que ele havia contado em casa. Ele diz que não, que não se lembra de nada disso. A essa altura do campeonato, contudo, a pipa e o jogo já haviam feito a sua parte, o seu efeito. Já haviam te constituído, para o resto da vida, em apanhador de pipas cadentes.
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