LAUDO DO APANHADOR DE PIPAS CADENTES

 
ASSENTOS   

Depoimento do Alfaiate em entrevista conduzida por Audite Nova, sobre o destino do Transeunte, como apanhador de pipas cadentes.

Deixa-me ver a imagem de perto, por favor. Obrigado. Onde a conseguiu?
Claro, sou eu aí, agachado ao lado do transeunte ainda menino.
De pijama, pois. Acordou e percebeu que estávamos ali a tirar fotos, em um dos cantos da Praça Olímpio Lima, com a casa ao fundo, o sobrado. Na época, ao lado ainda era um terreno baldio. Veio correndo, nem trocou de roupa. A atitude já era indício, sem dúvida, de que viria a ser um transeunte da Costa Mater.
Pois não, mas me parece que está interessada mais no apanhador de pipas cadentes, a partir do fato ocorrido algum tempo depois disso, que o constituiria como tal, não é verdade?
Ora, pois, vamos ao fato. Que, como disse, já teria feito, dois ou três anos após, o efeito de constituí-lo, pelo resto da vida, como apanhador de pipas cadentes. Sim, é verdade, mas não foi tão de imediato. Não imediatamente. Essa consciência viria aos poucos, ao longo dos anos.
Não, não por força de qualquer outra ocorrência semelhante. As pipas iriam se transformando em outro tipo de objeto. Simplesmente se transformariam em pipas celestes, estrelas reluzentes, como havia dito Olavo Bilac, o poeta que dava nome à escola do primário em que o menino estudou. Lembra? Ora, direis, ouvir estrelas, pontuando o céu e iluminando a noite escura sobre um campo imenso e deserto que o  envolveria por onde foi, por onde fosse, onde ficaria, mirando as alturas, como um vigia solitário.
É o que lhe digo. As estrelas iriam se transformando em ideias flutuantes, a ondular no espaço, vagando sobre a várzea infinita. Ideias múltiplas e diversas, simples ou complexas, comuns ou criativas, reais ou imaginárias. Não importa. Na sua imaginação infante, tornar-se-ia eternamente um observador de estrelas. Para sempre ali, atento, a ver se alguma estrela começaria a cair. Qualquer estrela, de qualquer luminosidade, tamanho, de maior ou menor relevância aparente no firmamento.
Sim, como um astrônomo amador, menos deslumbrado com a exuberância do universo e mais atento aos minúsculos e quase insignificantes pontos naquela vastidão, quase confundindo-se com regiões de escuridão. Mas que, sabia, poderiam ser muito especiais.
E se acontecesse de uma estrela se transformar em cometa, corpo e cauda em queda, saberia o que fazer. O que deveria e teria que fazer. Teria que correr e agarrar o fio da estrela cadente, e ficar assim, segurando o fio, deixando a ideia flutuando no espaço, à vista de todos, para ela não se perder. Poderia ser em um campo de futebol, um campo de plantação, um campo imaginário, um campo de anotações no canto de uma página de agenda. Até que alguém viesse resgatá-la, e ela retornasse aos autores ou voltasse às origens.
Sem dúvida, certamente a auditora já encontrou figura semelhante e situação parecida descritas por outros, talvez de modo um pouco desigual, em variação ou tom ligeiramente diverso. Conforme o uso que se faz dessa espécie de apropriação de ideias, alguns chamam a isso paráfrase, paródia, e também plágio, este termo principalmente quando se trata de defender direitos econômicos.
Independentemente dessas classificações e eventuais riscos, é justamente o que o empinador de pipas passaria a fazer desde então. Ficaria a recolher, empinar e quem sabe a transfigurar ideias alheias. Mas, enquanto ele estivesse ali, fazendo isso, saberia que a ideia acabaria por se projetar sobre outro campo, distante do dele. Ela se transformaria em outra ideia, porque se projetaria sobre um campo diferente. A única coisa que uniria a ideia a esses dois campos distantes e distintos, seria o fio umbilical que pegou. E aí a ideia também passaria a ser dele, por esse breve tempo. E com isso sentiria que fez ou faria o que deveria fazer, que ele seria o que deveria ser. Um eterno recolhedor da imaginação e de ilusões alheias, qual estrelas cadentes. Um discreto guardador de patrimônios volantes transitórios, transfigurado em oculto empinador de ideias.

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