AUTO DAS MÃES DE PORTUGAL


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Relatório escrito por Nihil Ultra sobre a canção Às Mães de Portugal, do Guarda-Livros, com trecho do poema homônimo da poetisa portuguesa Florbela Espanca. Os apontamentos decorrem da análise de todos os documentos pertinentes recolhidos, envolvendo manuscritos e outros registros. Compreendem também observações sobre inserções ou referências da composição nos lançamentos dos Cantos Correntes, e eventuais situações e circunstâncias afins.

RELATO 1

O documento que deu ensejo à auditoria foi uma partitura encontrada na pasta da trilha musical da encenação A Fundação da Vila de São Vicente de 2008, e que fazia parte do acervo do Bahu. Partitura editada por via eletrônica digital, escrita para canto, oboé e orquestra de cordas. 

O detalhe que provocou questionamentos e busca elucidação é a aparente desconexão entre a voz do canto e a voz do oboé. Enquanto o oboé toca a linha melódica da voz principal com um perfil rítmico marcado pelo tempo unitário, o canto traz a mesma linha melódica subdividida em tercinas, o que causa uma constante defasagem entre as duas variações da mesma formulação melódica.

Levanta forte suspeita de que o canto foi escrito muito depois do oboé, e uma suposição, a ser averiguada e eventualmente confirmada, de que o texto é responsável por tal discrepância. Muito provavelmente a canção foi escrita sem texto, ou teria outro texto. E os versos de Florbela Espanca exigiram um novo desenho rítmico para adequar a melodia à prosódia do texto. Tal suspeita repercute ainda o dever atuarial de se pesquisar quando a composição foi originalmente escrita. Consta 2007 como o ano de criação.

RELATO 2

O segundo questionamento por elucidar diz respeito à extensão real da peça. É uma canção de forma AB, com uma repetição de A (música e texto), antes de passar ao B, onde termina, sem volta ao A. Registros da encenação A Fundação da Vila de São Vicente, em janeiro de 2008, mostram que, no espetáculo, para se adequar ao tempo cênico, não houve a repetição de A, de modo que o uso inaugural constituiu-se numa inclusão parcial na trilha musical.  

RELATO 3

A canção utiliza como texto apenas a seguinte estrofe de quatro versos do longo poema da poetisa portuguesa Florbela Espanca

Ó mães doridas, junto ao leito
De morte onde ajoelhais,
Esmagai a dor em vosso peito,
Ó mães, não choreis mais.

e sublinha o momento em que a expedição marítima de Martim Afonso deixa Portugal, para atravessar o Atlântico em direção ao Brasil, quando as mães choram a perda de filhos navegantes que partiram mar afora. Uma voz consoladora e ao mesmo tempo desafiadora lembra às mulheres dos grandes feitos e das glórias que esperam os destemidos navegadores.

Há, no início do espetáculo, a inserção também parcial de outra canção, que induz a pensar em algum vínculo premeditado com esta. A canção Lar d´Além-Mar, com citação dos versos "navegar é preciso / viver não é preciso, além", tornados famosos por Fernando Pessoa, e complementados pelos versos "navegar é preciso / além". Seu texto começa com sentimentos de perda e esperança, na partida de Portugal ao Brasil, e termina com sentimentos de saudade e também de esperança por um futuro retorno do Brasil para Portugal. O vínculo que se especula é de uma provável relação bastante estreita entre a figura dos navegantes descobridores, em geral, dos Séculos 15 e 16, com a figura específica não de um navegante, mas de um passageiro atravessando o Atlântico, séculos depois. A suposição, a partir do que se recomenda uma consequente investigação, é de que esse passageiro seja o Alfaiate.

RELATO 4

A suposição do relato anterior apoia-se na análise de outro documento encontrado no Bahu, na pasta Jeunesse Pas. Uma peça musical, com título em inglês (Then), e  apenas a melodia escrita, sendo indicadas por cifras as harmonias dominantes em cada compasso. Trata-se da mesma melodia de Às Mães de Portugal, com as notas estabelecendo sincronia rítmica com os tempos, sem as tercinas.

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